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Mluamentos

A vida é um rio feito de tempo

A vida é um rio feito de tempo. Somos todos passageiros. Uns têm canoa, outros vivem nos seus barcos a motor, e há quem tenha iates. Mal nos damos conta de que muitos nada têm. Nadam a vida toda, percorrendo o rio do tempo com os próprios braços. Os braços, a fé e muita esperança.. Todos nós vivemos para uma e única coisa: ter o melhor. Assim, quem vive a vida do tempo na canoa sonha com um barco a motor, e quem nada a braços só quer uma canoa. E neste ritmo sem sentido perdemos a concentração no importante! Molhamo-nos todos na mesma água! Temos sobre nós o mesmo céu. Cai sobre nós a mesma chuva. Nascemos todos das mesmas mães, as que dão tudo por nós e depois nos deixam voar para se tornarem árvores. Dessas grandes, com imensa copa... onde nós, pássaros, queremos sempre pousar. Os nossos pais são diferentes, esses sim são os que se esquecem de nos dizer para não nos focarmos nos barcos. Acho que é por quererem o nosso bem. Esse bem que é ser tudo menos ninguém. Para as nossas mães, pouco importa se somos alguém ou ninguém. O importante é ser feliz, comer do prato delas e amar verdadeiramente. Por isso, gosto de ir ao parque e, ainda que as pessoas olhem para mim como se eu fosse uma louca, eu não me importo. Deixo-me ficar ali, tocando uma árvore qualquer. Uma mãe qualquer. Porque acredito que todas as árvores do mundo representam uma mãe que amou um filho. Não há amor maior. O amor de Deus é puro. O amor de mãe é pecado. Um pecado que, sem medo, segue errando na tentativa de acertar. E as pessoas olham para mim, ali parada, de olhos fechados e mão na árvore. É louca!, pensarão. E continuam descendo o rio como se soubessem tudo. Não sabem nada! Porque não houve dia em que não tocasse uma mãe e logo em seguida o vento não me acariciasse o cabelo. Como estás, minha filha? Hoje está frio! Onde está o teu casaco?. Por vezes, ouço: Já almoçaste? Tem comida no frígorifico. É só aquecer. A maior parte do tempo, escuto: Saíste de casa sem arrumar o quarto, não foi?. Por vezes, quando estou a cozinhar e me lembro de olhar pela janela (porque a gente acredita que a nossa casa é o nosso mundo, mas o nosso mundo é o que está lá fora à nossa espera), vem um vento que diz: Falta sal.... Olho lá fora e vejo a minha mãe a dançar, mexendo todas as ramas, dando vida a todos os filhos do mundo.
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